
Crise na Igreja
Quando o Doctor Communis foi silenciado: Rahner, o pós-Concílio e a crise da inteligência católica
Comunidade Ignis
21 jan. 2026
Tempo de leitura: 4 minutos
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É impossível compreender a crise teológica contemporânea sem reconhecer um fato histórico concreto: no período do Concílio Vaticano II e, sobretudo, nos anos imediatamente posteriores, houve um abandono sistemático do tomismo como eixo estruturante da teologia católica.
Esse dado é particularmente grave porque não se trata de uma escola qualquer. Santo Tomás de Aquino foi reiteradamente apresentado pelo Magistério como norma segura da teologia católica. Leão XIII, na Aeterni Patris, já afirmara que o tomismo é o instrumento privilegiado para restaurar a harmonia entre fé e razão¹. Pio XII, na Humani Generis, advertiu explicitamente contra o desprezo pela metafísica tomista². O Código de Direito Canônico de 1917 exigia que a formação filosófica e teológica dos seminaristas fosse solidamente ancorada em São Tomás.
Nada disso foi formalmente revogado pelo Vaticano II. Ao contrário, o decreto Optatam Totius afirma que os seminaristas devem ser conduzidos a penetrar os mistérios da fé “sob a orientação de Santo Tomás”³. Contudo, na prática, ocorreu o inverso.
Karl Rahner, jesuíta profundamente marcado pelo idealismo transcendental de Kant e pela ontologia de Heidegger, propôs uma reformulação radical do método teológico. Seu ponto de partida não é mais o ser, como em Santo Tomás, mas a experiência subjetiva do homem enquanto ouvinte da Palavra.
Rahner desloca o centro da teologia:
da metafísica do ser para uma antropologia transcendental;
da verdade objetiva revelada para a autocompreensão existencial do sujeito;
da analogia do ser (analogia entis) para uma lógica quase imanentista da graça.
É nesse contexto que surgem conceitos como o do “cristão anônimo”, segundo o qual todo homem, mesmo sem fé explícita em Cristo, estaria implicitamente ordenado à salvação por uma estrutura transcendental da consciência⁴.
Não é exagero afirmar que, em muitos ambientes eclesiásticos, Rahner passou a ocupar o lugar que outrora pertencia a Santo Tomás. Perguntados sobre o “maior teólogo”, não poucos padres, bispos e professores respondiam com naturalidade: Karl Rahner.
O problema central dessa substituição não é meramente a troca de autores, mas a mudança do método teológico.
Santo Tomás parte do real: o ser criado; a inteligibilidade da natureza; a distinção real entre essência e existência; a analogia entre Criador e criatura. Rahner parte do sujeito: da experiência pré-conceitual; da consciência histórica; da autotranscendência do homem.
O resultado é que a teologia deixa de falar primordialmente de Deus para falar do homem diante de Deus. A Revelação, em vez de julgar o sujeito, passa a ser reinterpretada à luz da experiência humana contemporânea.
São João Paulo II advertirá na Fides et Ratio, que quando a filosofia abandona o ser e se fecha no sujeito, a fé corre o risco de perder seu fundamento racional e tornar-se mito ou sentimento⁵.
A hegemonia rahneriana produziu efeitos concretos e duradouros:
Relativização do dogma: as fórmulas dogmáticas passaram a ser vistas como expressões históricas, mutáveis, de uma experiência fundamental.
Esvaziamento da missão: se todos são, de algum modo, “cristãos anônimos”, a evangelização torna-se secundária.
Crise sacramental: os sacramentos deixam de ser causas objetivas da graça e passam a ser lidos predominantemente como símbolos de uma realidade já presente.
Confusão moral: a lei natural, tão central em Santo Tomás, perde força diante de uma ética da situação e da consciência subjetiva.
O Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, foi em grande medida uma tentativa de frear essa deriva, recolocando a doutrina em bases objetivas e clássicas⁶. Contudo, o estrago formativo já estava feito.
A crise atual da Igreja — visível na perda de identidade doutrinal, no colapso vocacional em muitos países, na confusão litúrgica e moral — não surgiu do nada. Ela foi preparada por décadas de formação deficiente, na qual o pensamento forte, realista e metafísico de Santo Tomás foi substituído por sistemas complexos, abstratos e frequentemente ambíguos.
O Cardeal Sarah observa com lucidez que “quando a teologia deixa de adorar, ela deixa de ser teologia”⁷. O tomismo, por sua própria estrutura, conduz à contemplação. Grande parte da teologia pós-conciliar, ao contrário, tornou-se autorreferencial.
É fundamental compreender: retornar a Santo Tomás não significa negar o Concílio Vaticano II, mas resgatar o seu verdadeiro espírito, que jamais pretendeu romper com a Tradição.
Bento XVI insistiu repetidas vezes na hermenêutica da continuidade, lembrando que a Igreja não começa em 1962⁸. Santo Tomás permanece o grande arquiteto da inteligência católica porque soube unir fé e razão; Escritura e metafísica; doutrina e santidade.
Enquanto Rahner pode ser lido criticamente como autor de uma época, Santo Tomás é patrimônio permanente da Igreja.

