
Protestantismo
A Unidade da Igreja e o Escândalo da Divisão
Isaac Marcos (Comunidade Ignis)
14 abr. 2026
Tempo de leitura: 4 minutos
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Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo encarnado, não proferiu palavras vazias ou destituídas de intenção. Cada gesto e cada ensinamento se inserem na economia salvífica, revelando um desígnio divino coerente e perfeito. Ele mesmo, ao instruir os Apóstolos, não apenas comunica verdades, mas institui uma realidade visível e hierárquica: a sua Igreja.
Desde o início, Cristo não estabelece uma igualdade indistinta entre os discípulos. Há uma eleição, uma ordem, uma primazia. Entre os Doze, há o discípulo amado (cf. Jo 13, 23), e, sobretudo, há aquele a quem o Senhor confia as chaves do Reino: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18). Se Cristo fosse a única pedra no sentido exclusivo pretendido por certas leituras protestantes, por que razão mudaria o nome de Simão para Kephas, isto é, Pedra? A mudança de nome, na Escritura, indica missão e autoridade (cf. Gn 17, 5; 32, 28).
Essa Igreja, fundada sobre Pedro, é una. O próprio Senhor o afirma com clareza: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16). São Paulo ecoa essa verdade ao ensinar: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 5). A unidade, portanto, não é um acessório, mas uma nota essencial da Igreja (cf. CIC, 813).
Ora, diante dessa clareza evangélica, como compreender a multiplicidade de denominações protestantes? A divisão não pode proceder de Cristo, pois “todo reino dividido contra si mesmo será destruído” (Mt 12, 25). São Cipriano de Cartago já advertia no século III: “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe”¹. E ainda: “As vestiduras da fé cristã não poderão possuí-las aqueles que dilaceram a Igreja de Cristo.”
A ruptura protestante, iniciada no século XVI, funda-se no princípio do livre exame, segundo o qual cada indivíduo se torna intérprete último da Revelação. Lutero, ao propor a sola fide, reduz a justificação a um ato subjetivo de confiança; Calvino, por sua vez, introduz uma concepção rígida de predestinação. Contudo, essas doutrinas, divergentes entre si, revelam precisamente o problema estrutural do protestantismo: a ausência de um princípio visível de unidade e de uma autoridade infalível.
O próprio Lutero, mais tarde, reconheceria o caos gerado por esse princípio. A multiplicação de interpretações conduz inevitavelmente à fragmentação. Como ele mesmo lamenta: há tantas doutrinas quanto cabeças².
Em contraste, a Igreja Católica conserva, ao longo de dois milênios, a integridade da fé apostólica, sob a guia do Magistério. Como ensina o Concílio Vaticano II: “O Romano Pontífice, sucessor de Pedro, é o princípio perpétuo e visível da unidade” (Lumen Gentium, 23).
Além disso, é necessário discernir os critérios pelos quais muitos aderem ao protestantismo. Frequentemente, encontram-se quatro perfis:
Os ignorantes na fé, que, por falta de formação sólida, aderem a doutrinas simplificadas;
Os frustrados, que, não compreendendo a riqueza da liturgia e da vida sacramental, buscam experiências mais emotivas;
Os sentimentalistas, que reduzem a fé a uma experiência subjetiva;
Os ressentidos, que, escandalizados por pecados de membros da Igreja, rejeitam a sua santidade essencial.
Entretanto, tais motivações não resistem a um exame teológico sério. A Igreja é santa não por causa de seus membros, mas por causa de sua Cabeça, Cristo (cf. CIC, 827). Desde o início, conviveu com pecadores (ora, Judas traiu, Pedro negou), e nem por isso perdeu sua identidade divina.
Outro aspecto relevante é o uso indevido dos sinais extraordinários. A Escritura adverte que falsos profetas realizarão prodígios capazes de enganar (cf. Mt 24, 24; 2Ts 2, 9; Ap 13, 13). Portanto, milagres não são critério absoluto de verdade; é necessária a conformidade com a doutrina apostólica.
Por fim, deve-se afirmar com clareza: o protestantismo, enquanto realidade fragmentada e sem unidade doutrinal, não pode reivindicar para si o estatuto de Igreja no sentido pleno querido por Cristo. A própria Sagrada Escritura que utiliza foi discernida e canonizada pela Igreja Católica, sob a assistência do Espírito Santo.
A verdadeira questão, portanto, não é de preferência subjetiva, mas de adesão à verdade revelada. Aqueles que, com reta intenção, investigam profundamente as questões, frequentemente encontram na Igreja Católica a resposta coerente e histórica à fé cristã.
Cristo não prometeu facilidades: “No mundo tereis tribulações” (Jo 16, 33). A fé não é um sentimento passageiro, mas uma adesão firme da inteligência e da vontade à verdade revelada por Deus (cf. CIC, 150).
Assim, permanecer na unidade da Igreja não é uma opção entre outras, mas uma exigência do próprio Evangelho.
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