
Virgem Maria
Da Purificação de Nossa Senhora — Vulgarmente chamada de Candelária, ou Festa das Candeias
Extraído do Livro Ano Cristão (Fevereiro. Dia 2)
02 fev. 2026
Tempo de leitura: 11 minutos
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A festa deste dia compreende dois grandes mistérios: a purificação da Santíssima virgem e a apresentação de Jesus Cristo.
A mais pura de todas as Virgens que vem sujeitar-se a lei da purificação; e o Santo dos Santos o sacerdote eterno da nova Aliança que vem oferecer-se ao Senhor como sagrada vítima.
Maria, Mãe de Deus, a mais Santa de todas as mulheres, vem oferecer um sacrifício de expiação, ela que nunca jamais contraiu a menor mácula; o Filho Unigênito do Eterno Pai, o Redentor de todos os homens, que quer ser resgatado para se imolar a si mesmo por nós no calvário.
Duplo sacrifício neste duplo mistério
A mais terna das mães que vem imolar ela própria o a mais pura das Virgens que por humildade quer ser confundida com todas as outras mulheres.
Maria na apresentação sacrifica por amor dos homens o que ela tem de mais caro na qualidade de mãe que é o seu filho E na purificação sacrifica por assim dizer o que mais aprecia como virgem que é a Glória da própria virgindade.
Quantos mistérios se não encerram em um só mistério! Um Deus vítima; uma Virgem que só toma o título e a qualidade de mãe; um santo profeta que tem nos seus braços o Messias e desdobra todo o segredo e toda a economia de nossa Redenção.
Todo esse conjunto nos prega hoje o amor de um Deus para com os homens; a ternura da mãe de um Deus para com os pecadores; o culto da religião; a perfeita submissão à lei; o mérito da humildade e a importância da salvação. Que rico manancial de salutares reflexões para quem penetra o espírito deste mistério.
Quando o senhor deu a lei ao seu povo,1 ordenou que as mulheres se abstivessem por algum tempo depois do parto de entrar no templo e de tocar coisa alguma das que fossem consagradas ao culto.
Este tempo estava limitado há quarenta dias para o nascimento de um filho, e oitenta para o duma filha; devendo a mãe, decorrido este prazo, apresentar-se no templo e oferecer ao senhor em holocausto um cordeirinho, em ação de graças pelo seu feliz sucesso, e um pombinho ou uma rola como expiação do pecado, isto é, da impureza legal; se, porém, ela fosse pobre oferecia uma outra rola; ou outro pombinho em lugar do cordeiro. O sacerdote oferecia-os ao senhor E a recém parturiente ficava purificada.
Afora a lei da purificação da mãe, havia outra que particularmente respeita ao filho primogênito. Se o primeiro fruto do ventre da mãe for varão, diz escritura, separá-lo-eis para o Senhor e lh’o consagrareis.
Segundo esta lei todos os primogênitos dos filhos de Israel deviam ser dedicados ao ministério dos altares; porém como Deus tinha escolhido para este cargo os filhos da tribo de Levi, ordenou que os primogênitos das outras tribos, não devendo servir no templo, fossem apresentados ao Senhor como primícias que se lhe deviam, e que depois fossem resgatados a dinheiro: Pressio Redimes2
É certo que a lei da purificação de nenhum modo compreendi a Santíssima Virgem, porque tendo ela concebido por obra do Espírito Santo, e sendo mãe sem deixar de ser virgem, não tinha necessidade de se purificar e conseguintemente não devia entender-se com ela esta lei.
O miraculoso nascimento de Jesus Cristo apenas contribuíra para tornar mais pura a sua mãe: Unde sordes Virgine matre? Exclama Santo Agostinho3. Donde havia de vir mancha e impureza aquela que se tornou mãe sem deixar de ser virgem? Como havia de ter lograr a inclinação naquele castíssimo seio em que o verbo se fez carne? Entrei nele — diz o senhor pela pena de Agostinho — como no meu santuário achei-o puro, e não o deixei menos puro do que o achei. Não te cause admiração este milagre: Mater est mea; É minha mãe: Sed manu fabricata est mea; mas eu mesmo a fabriquei para mim e a fiz tal como Ela é.
E sem embargo, Maria, toda puríssima submete-se voluntariamente a uma lei que só entendia com as outras mulheres.
Considere-se o amor que Maria tinha a virgindade, e meça-se por aqui a grandeza do sacrifício que ela faz imolando hoje, à vista de todo o povo, aquele conceito em que, por assim dizer, as Virgens colocam a sua maior glória. Basta-lhe que seja um ato de humildade e de religião para não querer dispensar-se dele para não usar, para não fazer caso de seu privilégio.
O exemplo que lhe dera o seu filho ao oitavo dia do seu nascimento, sujeitando-se a lei da circuncisão, não lhe permite dar-se ela por dispensada da purificação aos quarenta depois do seu parto.
Que confusão! Que vergonhosa advertência aquelas pessoas que se dispensam das obrigações mais essenciais da religião, com o vão título da dignidade ou do nascimento!
Foi a Santíssima Virgem ao templo do dia marcado na lei; e seguindo em tudo o espírito do seu filho ofereceu por ele e por ela dois pombinhos que a lei mandava oferecerem os pobres. É verdade que tendo a ventura de oferecer a Deus o cordeiro imaculado, cujo sangue havia de purificar o mundo, pôde não ser necessário que oferecesse o outro cordeiro que era apenas uma figura deste, segundo a inteligência da lei.
Mas se a senhora fez nesse dia um grande sacrifício na qualidade de virgem pela sua purificação legal, não fez menor na qualidade de mãe na apresentação do seu próprio filho.
Facilmente se compreende que o Senhor da lei não estava sujeito ao seu julgo; todavia submeteu-se à observância dele, e Maria ofereceu cinco ciclos pelo seu resgate. Não deu este preço por eximir da obrigação de assistir aos altares aquele que ela sabia muito bem ser o Sacerdote eterno, e hóstia de propriação pelos pecados de todos os homens. Foi antes propriamente nesta qualidade que a mãe o ofereceu, e o filho se ofereceu ao Eterno Pai. A cerimônia legal era apenas a representação do mistério: o sacrifício do filho e da mãe era todo o interior.
Por esta oblação começou hoje Cristo no templo o sacrifício da nossa redenção que havia de consumar no calvário.
Maria instruída do mistério, quando hoje o oferece no tempo ao seu Eterno Pai, oferece-lhe em certo modo a Cruz.
Pode-se dizer que se o resgata é porque a vítima está ainda tenra, para a reservar e criar para este grande sacrifício.
Todos os padres são unânimes em afirmar que Maria fez esta oferta de plena deliberação e com toda a sua vontade, e por isso lhe dão o glorioso nome de Reparadora do gênero humano.
Pela mesma razão lhe aplica São Bernardo aquelas palavras de que usou o apóstolo para explicar o excesso do amor que Deus teve aos homens. Sic Maria dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum durex: Maria amou de tal modo os homens que lhes deu o seu unigênito filho para os redimir.
Concebe agora, se é possível, quanto custaria a mais terna das mães este sacrifício. Ela não somente sabia então em geral que aquele querido filho havia de dar a vida pela nossa redenção, mas até, como afirma o abade Ruperto, estava vendo individualmente com os olhos da alma todos os tormentos e dores que tinham de acompanhar a sua afrontosa morte. Apresentando hoje esta vítima divina ao senhor, seu princípio ao cruento sacrifício.
Por isso não se deve admirar que Maria tivesse observado tão profundo silêncio quando seu filho foi condenado à morte pois já havia dado o seu consentimento para ela na oblação que fez nesse dia.
Quando a Santíssima virgem entrou no templo, achava-se nele um vulnerável ancião chamado Simeão, homem justo e temente a Deus, que de há muito suspirava pela vinda do Salvador que havia de ser a consolação do seu povo.
O Espírito Santo de que ele estava cheio, e que lhe tinha dado uma oculta certeza de que não morreria sem ter visto com seus olhos o Cristo Salvador, deu lhe a conhecer interiormente que era aquela mulher a mãe de Deus e que o filho era o verdadeiro Messias.
Então arrebentando em transportes de amor, de reconhecimento e de alegria, tomou em seus braços o menino e começou a exclamar:
Agora sim, Senhor, podeis dispor do vosso cervo, chamando ao descanso eterno, segundo a vossa promessa. Morrerei contente, pois já não tenho mais que desejar neste mundo. É tempo que meus olhos se fechem, pois não tem mais que vê depois de ter em visto o Salvador dos homens, aquele que há de dissipar com a sua luz as trevas do erro e da idolatria espalhadas por toda a face da terra, aquele que há de ser enfim a glória do seu povo de Israel.
O Santo Ancião voltando-se depois para Maria, lhe disse, restituindo o divino depósito de seu precioso filho:
Eu vejo e compreendo que, embora este menino tenha vindo ao mundo para salvar geralmente a todos os homens, algum dia há de ser a ocasião de perda de muitos que não quererão aproveitar-se da sua morte. Prevendo estou que não obstante o grande desejo que os judeus têm de o receberem não há de ter maior, nem pior inimigo do que o seu povo. Será enquanto viver neste mundo um objeto de contradição. Acaba de se oferecer como vítima ao seu eterno pai, e tu consentistes na sua morte pelo fato de eu apresentares para ela. A tua alma será trespassada por uma aguda espada de dor quando chegue o momento de se consumar este sangrento sacrifício.
Ao tempo que aquele homem de Deus assim falava da dignidade do Salvador e do mistério de nossa Redenção, uma Santa viúva de 84 anos de idade, chamada Ana, filha de Fanuel, célebre pelo dom da profecia e pela santa vida que constantemente observava depois da morte de seu marido com quem tinha vivido sete anos, entrou no templo que frequentava muito. Ao ver o menino Jesus foi cheia do mesmo espírito e dos mesmos sentimentos de alegria de Simeão e começou de louvar a Deus e a contar o que sabia daquele Divino Infante a todos os que esperavam a redenção e salvação de Israel.
A festa da planificação da Santíssima virgem é uma das mais antigas da igreja. No ano de 542 em tempo do imperador Justiniano foi universalmente celebrada no dia 2 de fevereiro, em que se completam os 40 depois do nascimento do menino Deus.
O papa Gelasio, que governava a igreja trinta anos antes que Justiniana fosse imperador tinha já estabelecido em Roma esta festa quando, parar abolir a das Lupercalia ou purificações profanas que os pagãos celebravam no dia 13 ou 14 deste mês, instituiu a festa da purificação da Virgem com a cerimônia das Candeias a fim de sufocar com a santidade dos nossos mistérios as profanações e as infâmias que os pagãos cometiam neste tempo levando archotes acessos e fazendo muita cerimônia ímpias ao redor de seus templos às quais davam o nome de Lustrações.
Creem alguns, que Gelasio só imprimiu maior solenidade à festa da purificação e que ela já se celebrava na igreja desde o terceiro século.
O que há de certo é que Suriu na vida do famoso São Teodósio, fundador de Santos mosteiros, que vivia no ano de 130, fala de uma festa muito célebre da Santíssima virgem que naquele tempo era solenizada com grande devoção. Erat dies festus, et festus virginis, Dei Matris, in quo propterca quoa erat valde insignis et solemnis, tam magna convenerat multitudo. Havia uma festa em honra da virgem mãe de Deus E como era muito solene Concorria grande multidão de fiéis a celebrá-la.
Tão verdade é que a devoção à santíssima virgem foi desde os primeiros séculos da igreja a devoção favorita dos verdadeiros fiéis, como ainda hoje o é de todos os predestinados.
À imitação do que neste dia fez a mãe de Deus, costumavam em muitos bispados as mulheres parturientes, quando convalescidas do parto, ir à igreja dá graças a Deus pelo feliz sucesso e oferecer-lhe o filho ou a filha que o Senhor lhes concedera. E depois de uma oblação tão religiosa, não será uma espécie de sacrílega impiedade criarem os filhos com máximas pouco cristãs e os sacrificarem pela maior parte às vaidades do mundo?
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