
Espiritualidade
Do bom uso do tempo
Pe. Croiset
22 mar. 2026
Tempo de leitura: 5 minutos
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Considera que esta vida é propriamente o dia em que devemos trabalhar pelo céu, depois do qual vem a noite em que já se não pode fazer nada. Venit nox quando nemo potest operare. Que desgraça a daquele que não emprega bem este dia.
Não há coisa tão preciosa como o tempo desta vida; não há momento que não valha uma eternidade, porque a aventurosa eternidade é fruto daquelas graças que só se nos dão no tempo.
Aquela eterna felicidade, aquela glória inefável que os bem-aventurados gozam, aquele preço do sangue do Redentor, não é mais. Digamo-lo assim que recompensa do bom uso do tempo.
É tão precioso o tempo que todas as honras, todos os bens do mundo, não valem o que vale um só momento, e quando se não tivesse empregado senão um momento para adquirir todos os bens do mundo, se não tivesse ganho mais do que isso, poder-se ir e dizer com verdade que aos olhos de Deus, que julga-se sãmente de todas as coisas, era ter perdido o tempo.
Não há condenado no inferno que se fosse Senhor de todos os reinos do mundo, não os desse todos por lograr um só momento, de tantos que perde em vão passatempos, a de que nós não fazemos melhor uso. Portanto, é muito verdade que em cada momento que não empregamos por Deus, sofremos perda maior do que se houvéssemos perdido todo o universo.
O que os santos não poderão conseguir em toda a eternidade, pelos atos mais perfeitos das maiores virtudes, que é merecer um novo grau de glória, eu posso fazer a cada instante por um só ato de amor de Deus.
O que os réprobos não poderão conseguir durante toda a eternidade, pelas suas lágrimas, pelos seus pesares e sofrendo os mais horríveis tormentos, que é aplacar a ira de Deus e obter o perdão do mínimo pecado, eu posso fazer a cada instante, por um suspiro, por uma lágrima, com um só ato de condição perfeita e verdadeira, posso a todo momento obter o perdão de todos os meus pecados.
E como, Senhor, a eternidade feliz ou desgraçada depende do bom ou o mau uso do tempo, a nossa salvação não se pode fazer senão neste tempo. Está determinado o número dos nossos dias, e nada passa tão veloz como o tempo. E há de haver pessoas que empreguem esse tempo em inutilidades, pessoas que não saibam o que hão de fazer, pessoas que não pensam senão em gastar, em malbaratar, em perder este tempo. E não serei eu deste número?
Ah, Senhor, que uso eu tenho mesmo feito deste tempo? Ai, passaram já os melhores dias da minha vida, e todos se perderam. O dia declina, cai a noite. Oh bom Deus, que manancial de reflexões, e do mesmo passo, que manancial de sustos, de pesares, de arrependimento.
Considera que a nossa salvação não pode ser negociada senão no tempo, e que todo o tempo da nossa vida nos foi dado unicamente para trabalharmos neste grande negócio. Com que economia não devemos governar este tempo, cujos momentos são tão preciosos e cuja perda é irreparável?
Todavia, causa-nos grande dor essa perda? Chegamos mesmo a considerá-la como perda? Ah, no dia de hoje, chama-se diversão, partidas de prazer, negócios importantes, a tudo que mais fortemente contribui para perdermos o tempo!
Examinemos nós mesmos, que uso temos feito e estamos fazendo deste tempo? Temo-lo empregado, empregamo-lo agora em trabalhar na salvação? Tempo virá, que daríamos tudo para lograrmos um daqueles preciosos instantes que temos perdido, e ainda queremos perder. Que pesar, bom Deus! Que desesperação ver que todo este tempo se passou, e todo este tempo se perdeu.
Ah, se eu estivesse agora, diremos nós, nos derradeiros momentos, se eu estivesse agora como estivesse em tal e tal dia, quando meditava sobre o bom uso do tempo, se gozasse a mesma saúde, se me visse da mesma idade, ó meu Deus, que não faria! Mas desgraçado de mim, porque pensando então na dor que algum dia me havia de causar, ou não me ter aproveitado do tempo, não me aproveitei deste pensamento, nem desta graça, nem deste tempo. A juventude, a qualidade, a posição, as riquezas, a abundância, eram porventura títulos bastantes para eu passar uma vida ociosa, divertida, inútil? Eram títulos para malograr o tempo?
Que discretas, que prudentes foram aquelas almas fiéis que viveram dias cheios, aqueles servos de Deus, que passaram tão santamente este tempo!
Considera o Beato Nicolau em sua casa, no seio da sua família, no exército, no deserto: que aplicação a todos os seus deveres! Que horror a toda ociosidade! Que santo uso do tempo! Que vida tão ordenada! Que vida tão penitente.
Senhor, eu exprobro a mim mesmo tudo quanto esses fieis servos me laçarão em rosto, e de que vós também haveis de arguir-me, no tocante ao mau uso que tenho feito dum tempo tão precioso. Tornai-me com a vossa graça úteis estas exprobrações, tornando-as eficazes; e pois vos dignais conceder-me tempo, vou desde já começar a aproveitar-me de todos os momentos mediante o auxílio da mesma vossa divina graça.
Jaculatórias
Dum tempus habemus, operemus bonum — Enquanto temos tempo, façamos o bem.
Non defrauderis a die bono: et particula bone doni non te pretaercat — Façamos um bom uso destes dias tão preciosos, e não percamos um instante dum tempo que Deus nos dá para trabalharmos em nossa salvação.
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