
Espiritualidade
Das Cinzas às Virtudes: o Combate Espiritual que Inicia a Quaresma
Comunidade Ignis
18 fev. 2026
Tempo de leitura: 4 minutos
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Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Com estas palavras, que ecoam na liturgia austera da Quarta-feira de Cinzas, a Igreja inaugura o santo tempo da Quaresma. A imposição das cinzas não é mero rito penitencial externo, mas proclamação solene da verdade sobre o homem: criado do pó, decaído pelo pecado, chamado à glória pela graça.
A pedagogia quaresmal nos conduz ao combate espiritual. Mas este combate não consiste numa repressão voluntarista dos vícios, como se a vida cristã fosse um moralismo rigorista. Antes, trata-se de uma transformação interior pela aquisição das virtudes, que são disposições estáveis para o bem (cf. Catecismo da Igreja Católica, §1803).
Segundo Santo Tomás de Aquino, o vício é uma habitus malus, isto é, uma disposição estável que inclina a vontade para o mal¹. Ele não é apenas um ato isolado, mas uma inclinação desordenada que se enraíza na alma. A tradição ascética, desde os Padres do Deserto, identificou os vícios capitais como raízes das múltiplas deformações morais da vida humana.
Santo Agostinho, analisando sua própria experiência em Confissões, descreve o drama da vontade dividida: “Eu era para mim mesmo um grande problema”². A raiz do vício está no amor desordenado — amor sui usque ad contemptum Dei — o amor de si levado até o desprezo de Deus³.
O vício desfigura no homem a imagem divina. Ele obscurece a inteligência, enfraquece a vontade e escraviza o coração. “Quem comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8,34). Eis o diagnóstico evangélico que a Quaresma nos convida a enfrentar com coragem.
A resposta cristã ao vício não é meramente negativa (evitar o mal), mas eminentemente positiva: adquirir a virtude. Se o vício é uma disposição estável para o mal, a virtude é uma disposição estável para o bem.
Santo Tomás ensina que a virtude aperfeiçoa as potências da alma, ordenando-as segundo a reta razão iluminada pela fé⁴. A prudência orienta a inteligência; a justiça regula as relações; a fortaleza sustenta a alma nas dificuldades; a temperança modera os apetites.
Entretanto, a vida cristã não se reduz às virtudes morais adquiridas pelo esforço humano. Pelo Batismo, recebemos as virtudes teologais — fé, esperança e caridade — que têm o próprio Deus como objeto (cf. CIC §1812-1813). Elas são infundidas pela graça e tornam possível uma vida sobrenatural.
São Gregório Magno afirma que “as virtudes crescem pela luta”⁵. A Quaresma é precisamente este campo de batalha onde, iluminados pela graça, exercitamos as virtudes mediante a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6,1-18).
A tríade quaresmal não é arbitrária. Cada prática é um remédio espiritual:
O jejum combate a gula e educa a temperança.
A esmola vence a avareza e forma a justiça e a caridade.
A oração purifica a soberba e dilata a fé.
São Leão Magno ensinava: “O jejum foi sempre o alimento da virtude”⁶. Ao mortificar o corpo, não desprezamos a criação, mas restauramos a ordem do espírito sobre a carne (cf. Gl 5,16-17).
A virtude não elimina a luta, mas ordena-a. Como recorda Bento XVI, “o homem não pode redimir-se a si mesmo”⁷. Toda verdadeira conversão é obra da graça preveniente, que desperta a liberdade e a sustenta.
A imposição das cinzas é um sinal de morte — mas também de esperança. Recorda-nos a caducidade da vida terrena, mas aponta para a eternidade. “Se morremos com Cristo, cremos que também com Ele viveremos” (Rm 6,8).
O combate às paixões desordenadas não é um fim em si mesmo. O objetivo último é a conformidade com Cristo. Somos chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (Lumen Gentium, 40).
Fulton Sheen afirmava que o mundo moderno deseja eliminar o pecado sem eliminar o vício, e eliminar o vício sem adquirir virtude. Contudo, sem virtude não há liberdade. Sem graça, não há virtude sobrenatural.
A Quaresma é, portanto, um tempo de reconstrução interior. Das cinzas deve nascer o homem novo (cf. Ef 4,24). A disciplina quaresmal não é opressão, mas libertação; não é negação da alegria, mas preparação para a alegria pascal.
Ao receber as cinzas, a Igreja nos coloca diante da verdade: somos frágeis, inclinados ao mal, necessitados de redenção. Mas também nos recorda que fomos feitos para a santidade.
O combate contra os vícios exige ascese, vigilância e perseverança. Contudo, é pela aquisição das virtudes — humanas e teologais — que a alma se fortalece e se configura a Cristo.
Que esta Quaresma não seja apenas um tempo de renúncias exteriores, mas de verdadeira reforma interior. Pois das cinzas da penitência deve surgir o fogo da caridade.
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