Noção da virtude da penitência.

A penitência sobrenatural (enquanto virtude especial) é a virtude moral infusa que inclina o homem a reparar a injúria cometida por ele mesmo contra Deus pelo pecado.

Logo, o objeto material da penitência é o pecado próprio e pessoal, tanto mortal como venial, a ser destruído e evitado; pois é próprio da penitência doer-se pela ofensa cometida contra Deus, e detestá-la e fugir dela. Ademais, não somente a culpa, mas também a pena é compreendida no objeto material desta virtude: de fato, a virtude da penitência busca a reconciliação com Deus e, para alcançá-la, abraça a pena como castigo do delito cometido. O objeto formal ou motivo da penitência é a justiça divina lesada, a ser reparada por alguma compensação.

Os atos da penitência.

O ato próprio e principal da penitência é a contrição, isto é, a dor da alma e a detestação do pecado cometido, com o propósito de não pecar no futuro. Assim diz o Concílio de Trento. Os atos secundários da penitência são: a confissão, isto é, o doloroso reconhecimento ou acusação (interna ou externa) da culpabilidade; e a satisfação ou expiação por meio das penas. Destes três atos, o primeiro está sobretudo no coração; o segundo, na boca; e o terceiro, nas obras.

Os atos de penitência são atos da virtude especial da penitência, na medida em que são realizados em vista daquela especial honra que resplandece na reparação do direito divino lesado; para este fim, também os atos das outras virtudes podem ser regidos pela virtude da penitência. De fato, há atos de algumas virtudes, como a virtude da religião, da gratidão, da obediência para com Deus e, principalmente, da caridade, os quais, ao menos no ato praticado, incluem a penitência e a vontade de reparar a injúria feita a Deus.

Há dois tipos de contrição: 1.º A contrição perfeita, que é formada e aperfeiçoada pela caridade, ou que provém de um motivo de caridade. É a dor e detestação do pecado enquanto ofensa a Deus, amado sobre todas as coisas com amor sobrenatural. 2.º A contrição imperfeita, também chamada atrição, que não é formada e aperfeiçoada pela caridade, e não provém de um motivo de caridade e sim de um motivo inferior, embora sobrenatural, v.g., o medo do Inferno, o temor de perder a vida eterna, ou a fealdade do pecado.

O temor sobrenatural, donde provém a atrição, é aquele que exclui toda a vontade de pecar, de tal modo que faça o pecador detestar a ofensa feita a Deus ou o mal da culpa mais do que todos os outros males, em razão de ter merecido o Inferno por causa dela. Chama-se temor simplesmente servil, e dis­tingue-se do temor servilmente servil, pelo qual o homem odeia mais a pena do que a culpa, de modo que quereria pecar se não houvesse pena; tal temor é pecaminoso.

A torpeza sobrenatural do pecado consiste no fato de que ele desfigura a alma diante de Deus, priva-a dos méritos e da beleza da graça, torna-a odiosa a Deus, serva do pecado e do diabo; além de ser uma enorme ingratidão para com Deus, uma desobediência, uma injúria etc.

Coisas que se devem notar acerca da contrição perfeita.

1.º A contrição perfeita pode proceder da caridade formal ou da ca­ridade virtual. Se a contrição perfeita nasce da caridade formal, há dois atos distintos: o ato de caridade e o ato de penitência, onde o último decorre sob o influxo do primeiro. Com efeito, quando alguém ama a Deus sobre todas as coisas, é levado a acrescentar um novo ato pelo qual detesta seus pecados, os quais ofendem a Deus, que é sumamente digno de ser amado.

Se a contrição perfeita nasce da caridade virtual, há apenas um ato, pelo qual alguém detesta seus pecados na medida em que se opõem a Deus, sumamente digno de ser amado e [efetivamente] amado sobre todas as coisas. Neste caso, falta o ato formal de caridade e há somente o ato formal da penitência, embora Deus seja virtual e implicitamente amado como o sumo Bem.

2.º O ato de contrição, assim como o ato de caridade, pode ter uma dupla perfeição: uma pelo motivo, e a outra pela intensidade. O motivo dá ao ato a perfeição da espécie, pela qual pertence à virtude da caridade; a intensidade lhe dá a perfeição do grau na mesma espécie de virtude, e por esta razão distingue-se a contrição em grau intenso e em grau remisso. Assim, um ato de arrependimento pode ser perfeito quando, em razão do motivo, pertence à virtude da caridade, embora não seja intenso; e por outro lado, pode ser muito intenso e não ser perfeito na ordem da virtude, se proceder de um motivo inferior. Por isso, um ato de atrição, por mais perfeito que seja na intensidade, nunca atinge a virtude da caridade, cujo motivo é de ordem superior.

3.º A contrição perfeita, pela excelência do seu motivo, é: a) eficaz, pois por ela a vontade se afasta não só do pecado cometido, mas inclusive do pecado futuro, porque tem para com ele uma formal ou virtual repugnância; b) universal, pois quem detesta um pecado enquanto ofensa feita a Deus sumamente amado, detesta virtualmente todos os pecados mortais; porque através daquele ato, a ofensa a Deus é simpliciter e absolutamente detestada; c) suma, isto é, detesta o pecado mais do que todo o mal da pena. Com efeito, a detestação do pecado causada pela caridade, é proporcionada ao amor do qual nasce; mas aquele [amor] é sobre todas as coisas; logo, também a própria detestação.

Dúvida: A contrição consiste na dor ou na detestação?

Resposta: Segundo a sentença mais comum e verdadeira, consiste na detestação, visto que a dor é uma consequência próxima da detestação. Contudo, ambas são requeridas na contrição; e na realidade, uma está contida na outra.