O mistério da Circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pode chamar-se o grande mistério de suas humilhações, o primitivo penhor da nossa salvação, a consumação da antiga Lei, e como que o sinal ou o primeiro selo da nova Aliança.
Tendo Deus escolhido para si um povo entre todas as nações do mundo, ordenou que a circuncisão fosse o distintivo que o diferenciasse das outras. Todos os filhos varões que tiverdes, disse Deus a Abraão (Gn 17), serão circuncidados, e essa circuncisão ficará sendo o sinal da aliança que há entre mim e vós. Como era esse o caráter singular do povo, que descendendo de Abraão estava destinado a ser herdeiro das bençãos prometidas à sua posteridade, tornava-se necessário que Jesus Cristo fosse assinalado com esse selo, como aquele em quem havia de ser bendita essa descendência; para mostrar que era filho de Abraão, de cuja linhagem estava profetizado e prometido que nasceria o Messias. Sujeitou-se voluntariamente o Filho de Deus a essa lei de humilhação, já que por nenhum título estava obrigado a ela. Ordenara-se a circuncisão como remédio para purificar a carne do pecado original e a de Jesus Cristo estava limpa de toda a mancha. Mas desde que Ele quis ser o Salvador dos homens, diz Santo Agostinho, necessário foi que tomasse o sinal de pecador que atraísse sobre si a pena correspondente ao pecado.
Para poder desempenhar perfeitamente o título de Salvador, prossegue o mesmo santo padre, era mister um justo, em quem, por uma parte, Deus se comprouvesse infinitamente e a quem, por outra, pudesse tratar como pecador, a fim de achar nos seus trabalhos e nos seus merecimentos uma plena satisfação, proporcionada à majestade da Divindade ofendida e ao rigor da sua justiça.
Antes da consumação desse mistério, não tinha havido no mundo propriamente Jesus ou salvador que fosse hóstia de propiciação por nossos pecados. Nem naquele divino Menino encontrava Deus coisa que não servisse de objeto às suas divinas complacências. Circuncidou-se, e logo que aquele querido Filho se deixou ver com aparência de pecador, uniu na sua pessoa as duas qualidades necessárias para Salvador do mundo; porque sem deixar de ser Filho querido, tornou-se também a vítima que o mesmo Deus pedia. Foi por isso que Jesus só tomou o nome de Salvador no dia da sua circuncisão; e este foi, propriamente falando, aquele em que, carregado com o peso das nossas iniquidades, se obrigou solenemente a satisfazer por elas.
Vida pobre e obscura, vida laboriosa e humilhada, opróbrios, suplícios e morte de cruz, tudo dimanou da dura obrigação que neste mistério contraiu: nada padeceu na sua Paixão, nem durante o decurso da sua vida, que não houvesse livremente aceitado na circuncisão.
Todas as outras humilhações do Salvador foram, em certo modo, ilustres pelo esplendor de algum milagre: a presente careceu de todo o brilho que a ilustrasse, por que nela tomou o sinal, a confusão e o remédio do pecado. É verdade que semelhante humilhação no verdadeiro Filho de Deus foi tão assombrosa como poderá ser o maior de todos os prodígios.
Pode-se dizer que foi propriamente neste dia que começou a redenção do mundo, e que Jesus Cristo tomou posse da sua qualidade de Salvador, pois foi nele que desempenhou as suas primeiras funções como tal, pela primeira efusão do seu sangue. Oh, que poderoso motivo de amor e reconhecimento não são estas primícias das suas dores! Mas também que será de nós, se não nos aproveitamos de tudo o que esse divino Salvador padeceu para nos salvar?
Muitas são as razões que os Santos Padres alegam para que o Filho de Deus quisesse sujeitar-se à lei da circuncisão.
Primeira: quis ele, diz Santo Epifânio, tirar o aparente pretexto que teriam os judeus para não o reconhecerem, se fosse incircunciso.
Segunda: a circuncisão era de instituição divina, e o Salvador não pretendia dispensar-se dela.
Terceira: quis provar, por essa dolorosa cerimônia, que era verdadeiro homem, contra o erro dos maniqueus, que só lhe concediam um corpo fantástico e aparente; contra os apolinaristas, que lhe atribuíam um espírito consubstancial à mesma Divindade; contra os valentinianos, que diziam que o corpo de Jesus Cristo era de matéria celeste.
Quarta: quis dar exemplo de perfeita obediência à Lei em todas as circunstâncias que esta prescrevia.
Quinta: quis, como diz o Apóstolo, carregar Ele próprio com o jugo dessa lei, que vinha abolir, pondo termo a todas as cerimônias legais, ao mesmo tempo que as observava; porque só com aquele ato de religião dava mais glória a Deus do que o poderiam fazer todos os homens juntos, pela mais exata observância da Lei até ao fim dos séculos.
É muito provável que o Salvador do mundo tenha sido circuncidado em Belém, e, segundo Santo Epifânio, no mesmo presépio em que nasceu. Nada a Lei determinava com relação ao lugar, nem ao ministério daquela operação. Fez-se no oitavo dia do seu nascimento, como a mesma Lei determinava: porque tendo vindo o Salvador ao mundo para cumprir a Lei e os Profetas, e preencher perfeitamente todos os deveres da religião, quis observar estritamente esta Lei ate mesmo nas suas menores circunstâncias.
Costumavam, então, os judeus não pôr nome a seus filhos até ao dia em que estes fossem circuncidados. Isso não era preceito expresso de Deus, mas sim costume indiscutível, fundado talvez no exemplo de Abrão, a quem Deus mudara esse nome no de Abraão, no dia em que mandou se circuncidasse. Por outro lado, parecia muito razoável que para dar ao Menino aquele nome, pelo qual havia de ser conhecido no povo de Deus, se aguardasse o dia em que tinha de incorporar-se no mesmo povo, por meio do sacramento que Deus instituíra para esse efeito. E verosímil que pela mesma razão nós pomos nome aos meninos no Batismo, por cujo meio se fazem membros do corpo místico de Jesus Cristo e são parte do verdadeiro povo de Deus, passando a ser filhos da Santa Igreja.
Recebeu o Filho de Deus o nome de Jesus no dia da Circuncisão, como o anjo tinha anunciado em sonhos a José, antes que a SS. Virgem o concebesse nas suas entranhas, dizendo-lhe: Dara à luz um Filho, a quem porás por nome Jesus, porque ele salvará ao seu povo, e o livrará dos pecados (Mt 1).
Oh, meu Deus, quantos mistérios se não encerram neste só mistério! Que lições tão importantes não nos da ele! Que ardor, que ânsia a de Jesus Cristo para cumprir todos os elevares da religião! Com que exatidão não obedeceu à Lei! Poderia antecipar-se mais a dar-nos as maiores provas do seu amor? E poderíamos nos ter outro Salvador mais digno do nosso coração, mais credor de todo o nosso respeito? Poderíamos lograr um modelo, um exemplar mais perfeito? Oh, meu Deus, e como essa exata obediência de Jesus Cristo condena aquelas demasiadas indulgências, aquelas vãs interpretações da Lei, aquelas frívolas dispensas com que pretendemos eximir-nos dela? Como essa antecipada humilhação do Salvador confunde a nossa soberba! Como essas primícias das suas dores seriam poderoso remédio para curar as suscetibilidades do nosso amor-próprio, se nos internássemos bem no espírito desse mistério!
Acabou-se em Jesus Cristo a circuncisão antiga, porque Ele mesmo veio a estabelecer a nova. Porém o Salvador não nos deixou, diz o Apóstolo, uma circuncisão exterior da carne: In expoliatione corporis carnis (Cl 2, 11); mas sim uma circuncisão interior do coração, que se faz com o fervor do espírito: Circumcisio cordis in spiritu. Sem essa circuncisão do coração, isto é, sem cortarmos os desejos iníquos e vãos, os desejos mundanos e desordenados, os desejos imoderados e ilícitos que nascem dentro do coração, e o maculam e corrompem; finalmente, sem aquela mortificação generosa e perseverante de nossas paixões, vãmente nos chamaremos de discípulos de Cristo, só porque no exterior estejamos, por assim dizer, marcados com o seu selo.
Essa reforma interior do coração humano é a que São Paulo chama propriamente a circuncisão da lei da graça, quando diz que nós, os que servimos a Deus, somos hoje a mesma circuncisão: Nos enim sumus circuncisio, qui spiritu Deo servimus (F1 3). A vida cristã é uma vida de circuncisão e de cruz. Por mais que isso vá de encontro com o amor-próprio, por mais que repugne à carne, não se pode reconhecer o verdadeiro cristão senão por esse selo. Quem não tem esse espírito de mortificação interior, dever-se-á reputar, digamo-lo assim, como incircunciso.
Deve-se notar que a festa deste dia, antiquíssima na Igreja pela devoção que os fiéis tiveram sempre a esse mistério, se celebra, já com o título de Oitava da Natividade de N. Senhor Jesus Cristo, já com o da Circuncisão, e já com o de festa particular da Santíssima Virgem.
No Sacramentário Romano, o papa São Gregório junta a memória da Circuncisão de Jesus Cristo com a Oitava da sua Natividade, e com a solenidade da SS. Virgem sua Mãe; e a Igreja ainda hoje parece ter em vista celebrar essas três solenidades no ofício e na Missa do dia, porque o Introito, o Gradual e o Ofertório são da Oitava da Natividade: a Epístola e o Evangelho são do mistério da circuncisão; e as Orações são em honra da S. Virgem, que havendo tido tão grande parte nestes mistérios, era justo que não ficasse esquecida na solenidade desse dia.
Foi singular disposição da divina Providência, que sendo o dia de hoje o primeiro do ano civil, segundo o modo de computar dos romanos, que então davam a lei a todo o universo, fosse também o primeiro dia do Ano Cristão.
Costumavam os gentios, por uma espécie de antiga superstição, celebrar com toda a sorte de desordem o primeiro dia de janeiro, em honra do deus Jano, e da deusa Estrênua, ou das estreias. Porém tendo sido esse dia santificado pelo Salvador do mundo com as primícias do seu sangue, não esqueceu à Igreja meio nem arbítrio algum para mover os fiéis a santificá-lo com piedade verdadeiramente cristã, abolindo a memória das profanidades gentílicas pela modéstia edificativa e pelos exercícios de penitência e devoção em que deseja se impregnem todos os seus filhos.
Tendo-se introduzido, pouco a pouco, mesmo entre os cristãos, os regozijos profanos das calendas de janeiro, inflamou-se o zelo dos Santos Padres contra a festa "das estreias", o que os levou a introduzir na Igreja, nos seus primeiros séculos, o jejum dos três últimos dias do ano e dos três primeiros do seguinte, como se lê no Canon décimo sétimo do segundo Concílio de Tours. Porém destruído depois inteiramente o paganismo, a mesma Igreja teve por mais conveniente ab-rogar o jejum universal, em todo o tempo que vai desde a Natividade até à Epifania, representando-o por tempo Pascal: Omni die fastivitates sunt (Concil. Tur.17), e contentou-se com inspirar aos fieis um grande horror aos costumes pagãos, exortando-os a santificarem o primeiro dia do ano e os seguintes, com extraordinária edificação e piedade. Poder-se-á ver sem lágrimas — exclamava o célebre Faustino, lamentando as extravagâncias dos pagãos do seu tempo — poder-se-á ver sem lágrimas esses mentecaptos, correndo de rua em rua, desde os primeiros dias do ano, disfarçados com máscaras ridículas de todo gênero de figuras, a dar pulos de alegria, porque se veem transformados em feras, e nos mais vis animais? In istis diebus miseri homines sumunt formas adulteras: aliis vestiuntur pellibus pecudum, gaudentes et exultantes si taliter se in ferinas species transformaverint. Eis aqui a verdadeira origem das festas do carnaval, e quais foram os primeiros autores das máscaras. Horroriza-te, continua esse padre, horroriza-te das escandalosas desordens, que muitos cristãos não se envergonham de imitar. Quas ad huc plures in populo observare non erubescunt. Permita Deus que não manches jamais os teus olhos com a vista das extravagâncias e loucuras desses insensatos: Ut oculi vestri videndo luxuriam stultotum hominum polluantur. O cristão que tenha algum pudor, nunca deve ser testemunha de tais espetáculos.
Santo Agostinho, pregando contra os excessos que se cometiam naqueles primeiros dias, olhando-os como relíquias do paganismo, dizia: Será possível que sigais os mesmos costumes e cometais os mesmos excessos que os pagãos, vos que fizestes profissão de ser discípulos de Cristo? Quomodo aliud credis, aliud speras, aliud amas? (Ser. 7). Como se concilia a vossa religião com os vossos costumes? Como se ajustam estas diversões com a vossa fé e com a vossa esperança?
Irmãos meus, se de hoje em diante quereis proceder como cristãos, deve ser esta a vossa linha de conduta: Dant illi strenas, date vos eleemosinas: Os pagãos fazem hoje, a título de estreias, regalos supersticiosos? Pois fazei vós esmolas caritativas. Advocantur illi cantationibus luxuriarum, advocate vos sermonibus Scriptuarum: Concorrem eles aos seus festins, convidados pelas músicas perigosas, pelas canções impudicas? Reuni-vos, pois, vos nas vossas casas em conversações piedosas, ou pelo menos honestas. Currunt illi ad theatrum? Vos ad Ecclesiam: Correm eles às praças, aos teatros? Pois correi vós às igrejas. Inebriantur illi? Vos jejunate. Entregam-se eles à embriaguez, aos excessos em banquetes obscenos? Pois santificai vós com o jejum o primeiro dia do ano. Si hodie non potestis jejunare, saltem um sobrietate prandete. E quando pela solenidade do dia vos pareça que não é razoável jejuar, ao menos que a sobriedade reine em vossas mesas; e procurai dar em tudo bom exemplo por meio de uma crista modéstia.










